Editorial


Angola

Reduzida à sua efectiva escala, a polémica ateada por Bob Geldof impõe no entanto duas perguntas: as relações Portugal-Angola devem ser tratadas em que termos? O facto de Angola estar muito longe de ser uma democracia deve impedir ou embaraçar as relações comerciais entre os dois países?

André Macedo

Como é evidente, a resposta é não e não. Tudo o que for conseguido para aproximar as duas economias é positivo e ajudará tanto angolanos como portugueses. Com o tempo, este processo – porque tudo isto é um processo – beneficiará cada vez mais pessoas, embora hoje o desequilíbrio em Luanda ainda seja insuportável e doloroso.

O assunto é difícil. Condenar os abusos em Angola, as violações de direitos humanos, a inexistência de liberdade de imprensa, a corrupção, o facto de as empresas estrangeiras não se poderem instalar sem aceitar um sócio local – tudo isso é verdade e não deve ser colocado apenas como nota de rodapé. Mas sublinhar estes problemas e cruzar os braços também não resolve nada. Dar uma palestra em tom heróico para uma audiência chique não basta. É uma banalidade com lágrimas de crocodilo. É preciso mais. Para os portugueses, Angola é uma oportunidade, mas também é uma responsabilidade – sem complexos. Além de denunciar, é preciso exigir mais abertura nas negociações, mais transparência, menos Estado. Ou seja, exportar a democracia passo a passo, negócio a negócio, pessoa a pessoa.

Nos últimos anos é isso que, silenciosamente, têm feito várias empresas portuguesas – algumas de maior porte, outras pequenas, quase invisíveis. Na realidade, embora com outros objectivos menos altruístas – o lucro –, estas empresas, arriscando o próprio capital, têm contribuído mais para a democratização de Angola do que o simpático Bob Geldof jamais contribuirá. Mas este caminho tem dois sentidos. A Sonangol também tem aumentado o seu peso no BCP e na Galp, além de ter mais planos para outras empresas portuguesas.

Não vale a pena ser ingénuo. Numa altura em que o dinheiro não cai das árvores, os petrodólares são duplamente bem-vindos – desde que respeitem as regras do jogo. Até prova em contrário, é isso que tem acontecido, o que fortalece ainda mais este processo de contágio positivo entre Portugal e Angola. Então, onde ficamos? Simples: o capitalismo é o maior libertador da história, o dinheiro é um poderoso vaso comunicante. Sem limitarmos a nossa liberdade crítica, deixemo-lo seguir o seu curso revolucionário. A democracia liberal não nasce como as letras de uma música. Não basta a inspiração. Dá mais trabalho, leva mais tempo.

Comentários
 
António Aleixo
Estou a ver a sua posição ,é sem dúvida um apologista quando o dinheiro fala ,a razão cála-se .
 
CSMA
Bob Geldof te toda a razão do mundo aquilo é governando por um bando de bandidos e corruptos. Portugal e o portugueses deviam criticar e repudiar esses governantes tal como o faziam no tempo do apartheid ou a cor do dinheiro faz as pessoas ficar com vista grossa ou somos hipocritas por natureza ???
 
Joca (jms_vz@msn.com)
Ai Angola, Angola...Os teus filhos choram de fome!!!Os teus governantes compram o Mundo!Palavras para que?Agora sim, Angola esta a ser colonizada..ou roubada...Tenho pena!
 
OBSERVADOR
Cada país é o que é. De bom e de mau. Tem o Governo e/ou as entidades individuais atingidas, toda a legitimidade para contestar, eventualmente processar o Bob, pedir-lhe contas e contestar ou retorquir ao homem que proferiu as palavras que proferiu. Não tem qualquer legitimidade, nem qualquer direito de, sobre terceiros (portugueses, governo português, organizadores do evento, etc, etc) retaliar por causa da situação. Na verdade até, para espanto meu, retaliou-se Angola contra tudo e contra todos, mas ainda não vi sobre o Bob, enquanto responsável último e primeiro das palavras que disse, e, que aqui, lhe deve ser garantida a liberdade de o dizer, como dizia sobre o Bob ainda não vi uma linha, o abrir de um processo internacional ou em Inglaterra, etc. Por isso, tem o valor que tem. O Bob espantou de facto. A retaliação nem merece atenção.
 
Atento
Uma visão optimista, mas mesmo assim construtiva. Conclusão: é preciso ter estômago para investir em Angola.
 
NapoLeão
O cidadão Bob Geldolf, Sir ainda por cima, apesar de ter razão nos seus desabafos, anda-anda nunca mais nesta vida e na dos seus herdeiros poderá pôr os pés na Angola de governantes ricos e angolanos pobres !! Há coisas "fantásticas" !!!
 
Jose
Yes, but. Lembra-se dos "diamantes de sangue" da Libéria? Ou dos sapatos da Nike fabricados na Indonésia, quando Suartho esmagava os Timorenses? Pois, eu tive toda a vergonha do mundo, quando ouvi o ex-Ministro da Indústria de Cavaco, Engenheiro Mira Amaral (empregado de Américo Amorim e da filha de José Eduardo dos Santos) falar do "cantor pop". Fez mais Bob Geldof pela fome em África do que todos os "Mira Amaral" empregados....
 
g de m
Ao colega Aleixo: talvez possamos ver a coisa desta forma:"quando o dinheiro fala BEM, a razão tende a caminhar no BOM sentido".Ou seja, o importante é fazer bem o nosso papel, de forma séria e honesta, dar bons exemplos e, com o tempo, quem nos rodeia vai-nos dar razão e encarrilar como deve ser. Se ambas as partes forem malinas, nada a fazer. Se as duas forem boas, então é oiro sobre azul. Se uma delas for recta e bem intencionada, a outra vai-se sentir atraída pelo bom e pelo correcto. Sim, é claro que leva o seu tempo, e por vezes uma geração não chega, mas o caminho faz-se caminhando.
 
lc
Bob Geldorf disse ou não a verdade? Na opinião do autor, mesmo que seja verdade, esse facto não deve embaraçar as relações económicas entre os dois países. Quando os petrodólares angolanos falam a consciência deve calar-se.
 
Manuel
A razao, direitos humanos. Cala-se tudo desde que paguem. Tenho duas amigas que lhe queria apresentar, a ética e a moral.
 
José Pedro Almeida
O capital circula exclusivamente entre os criminosos de lá e os "criminosos" oportunistas de cá !!! Portugal tornar-se-á na Angola europeia, ie, uma classe média cada vez mais pobre, uma classe pobre a aumentar em percentagem nacional e, por outro lado, algumas empresas e uma nova e restrita classe social, cuja riqueza e poder foi conseguida através de corrupção e tráfico de influências, no início cá e agora com Angola ! O deslumbramento com o petróleo e diamantes só beneficia quem com eles se deslumbra ! Um dia queixem-se de graves convulsões sociais ! Por outro lado, compreendo o artigo em questão, mas nunca o escreveria: revela hipocrisia, cinismo, insensibilidade e oportunismo por parte de quem o escreve ! A vida não é nos vendermos por dinheiro ! Este "easy come easy go!" e todos morremos dentro de um pequeno caixão !
 
vg
O Geldof é um desses roqueiros,como Buono ou Sting, a quem os media prestam veneração pelas verdadinhas lapalissianas que produzem.Talvez que pudessem ajudar com os milhões que acumularam a esfregar cordas.Será que já disse algo similar sobre os petro-nababos Chavez,Irão e Arábia Saudita?...Sol menor...
 
Pedro Pais
As audiencias de Bob Geldof serão chiques? Os concertos Live Aid que organiza e os milhões que consegue para ajudar a matar a fome em África tem cá uma audiencia chique que mete uma grande impressão. Ele há coisas fantásticas não há?
 
Leandro Coutinho (L_Coutinhofr@Yahoo.fr)
Em Portugal há muita "dor de coto" pela riqueza que Angola possui.. Trata-se de um país soberano.. Se há iniquidades, se há corrupção, se há pouca clareza jurídica.. isso diz respeito aos angolanos resolver.. não é suposto ser o Bob-compositor-cantor a mandar bocas.. ele que se preocupe com a terra dele.. a Irlanda é sempre apontada como exemplo e, afinal, detectou-se corrupção e fuga ao fisco no mais alto nível do Estado.. Os senhores escrevinhadores que perdem o tempo a verter rios de tinta sobre Angola e a "corrupção" angolana teriam muitissimo mais campo de investigação se se debruçassem a esmiuçar as autarquias portuguesas uma por uma, tal como aconteceu com o futebol... Acabem com essa mentalidade de "Angola é nossa" meia recauchutada... Angola é dos angolanos.. se há corrupção eles irão resolvê-la tal como resolveram problemas e desafios que se afiguravam inultrapassáveis desde a independencia..
 
Diogo MS
Creio que temos duas opções, ou continuamos a tentar a abrir Angola ao comércio internacional tal como o mundo fez com países como a china, que fez com que a situação no país melhorasse muito, embora ainda haja muito trabalho pela frente. Ou podemos fazer como os EUA e o seu falso puritanismo e cortar relações tal como eles fizeram com Cuba e deixar os cubanos na miséria e numa economia totalmente centralizada pois sem investimento privado o estado tem ainda mais poder. Tal como "g de m" disse , aos poucos e poucos a economia vai abrir , os consumidores irão querer ter mais escolhas e o estado ,por muito forte que seja, não irá ter outra opção senão permitir que a economia se abra. Até porque José Eduardo dos Santos, se fôr esperto irá perceber que quanto mais comércio e investimento houver em Angola mais dinheiro irá entrar no seu bolso.
 
Xabregas
O Bob disse uma grande verdade . Todos sabem mas os nossos Politicos e Empresários do e pró-sistema estão-se a marimbar desde que a guita lhes entre pró bolso.... a troco de favores ... muitos. Os pretos de angola entretanto estão na miséria mas que se lixem agora que a troco de favores venham para aqui tomar posições em empresas enfim também que se lixe afinal de contas os pretos somos nós que votamos em politicos corruptos mentirosos e chulos e nas empresas e empresários que vivem à pála do oçamento como moscas à volta da merda.
 
DosSantos
O Geldof tem razão no que disse, mas Angola e África em geral foram vitimas primeiro do colonialismo e depois pelos imperialismos. Resultado,salvo raras excepções,esses Paises são governados por ferozes ditaduras corruptas e inversamente proporcionais ao numero de habitantes e á riquesa natural de cada Estado.No caso de Angola e das antigas colonias africanas, Portugal será sempre o mal menor para ambos os povos ultrapassadas que estão as principais querelas e poderá ser mesmo a verdadeira porta para democratizar aqueles Paises.
 
ratafedorenta
Angola!..ora aí está um lugar onde o Bob tão cedo não canta nem faz discurso!...
 
cj
Cá para mim, este comentador tb deve ter interesses em Angola. Eu como Angolano sinto-me triste com este tipo de atitudes...
 
Jesus
Seria bom que os "Geldof" que por aí andam falassem de direitos humanas e de todas as restantes preocupações humanístics como a pobreza, doenças endémicas e restantes males que assolam o Mundo nos púlpitos em que pudessem ser ouvidos por milhares de cidadãos comuns, daqueles que lutam diariamente pela sua sobrevivência. Num palco onde a plateia é ocupada/paga a preço de ouro é fácil a demagogia. Recebe-se principescamente, andam-se pelos palcos da vaidade m até porque estavam seguramente contratualmente previstos todos os detalhes ara de seguramente azem pagamento miilionário parte da massa anónima de cidadãosdemonstrassem
 
José Cruz
É incrível tanta hipocrisia! Até parece que em Portugal não há vigaristas e corruptos. Não é preciso ir longe, basta ver o futebol. Os americanos , os espanhois, os franceses, etc. sempre negociaram com Angola, mesmo antes da actual indiscutível abertura do regime de Luanda. Os palhaços que condenam as relações com Angola são os mesmos que dizem que a economia em Portugal está um caos. Querem que ela melhore ficando orgulhosamente sós.
 
RE
Bob Geldolf falou de criminosos, os pintos da costa, valentins,e todo os politicos cuja promiscuidade com os interesses privados ainda reina em portugal sao tudo bons rapazes !!!
 
Carlos Gomes (cargoa@gmail.com)
É sempre assim. Para os neo-liberais como o autor há duas especies de ditaduras. As boas onde o capital se movimenta à vontade e os governos respectivos obedecem a esses ditames e as más que são todas aquelas em que os grupos económicos não exploram nem pilham com esse à vontade. Isso faz com que a China, Angola, Birmânia, Arábia Saudita sejam países exemplares e que por exemplo Cuba e quejandos sejam países horriveis e os seus governantes monstros. Para o capitalismo não importa que dos milhões de crianças em todo o mundo que não têm um tecto, nem alimentos muitas sejam angolanas, chinesas e que nenhuma seja cubana. É assim o alto respeito dos direitos humanos do Capitalismo. ´E assim a grunhisse dos portugueses que fazem destes senhores os escribas do regime.
 
Africano
Quem são so senhores de Angola.O povo não é concerteza.Mas também não é hostilizar o governo dete pa´si que vai alterar o rumo dos seus governentes.Portugal tem que ser pragmático e ter as melhores relações sociais, políticas e económicas com o mesmo.è um pais com imensas riquezas e que nós portugueses podemos ajudar a redistribuir pelo seu povo criando empregos com investimento e dando o exemplo aos seus dirigentes.
 
Africano
Quem são so senhores de Angola.O povo não é concerteza.Mas também não é hostilizar o governo dete pa´si que vai alterar o rumo dos seus governentes.Portugal tem que ser pragmático e ter as melhores relações sociais, políticas e económicas com o mesmo.è um pais com imensas riquezas e que nós portugueses podemos ajudar a redistribuir pelo seu povo criando empregos com investimento e dando o exemplo aos seus dirigentes.
 
Carlos Oscar
Pergunta ao Xabregas: Se estivesse a falar de França, da Inglaterra, etc. diria os brancos de França, os brancos de Inglaterra, etc.? Porquê não chamar aos de Angola simplesmente angolanos ? Não seria o mais correto? Esse "pretos" que utiliza não será uma demonstração, ou pelo menos um resquício de racismo?
 
Relembrar
o dirigente máximo do País em questão foi marxista leninista educado e ajudado pela URSS..
 
Amigo da Onça
Não há nada como fechar os olhos quando nos convém! Vale tudo, em política e Economia! Beijem os Governantes Angolanos!!! Saquem o Dinheirinho e, depois, abandonem o povo Angolano à fome!!! Já agora, porque não convocar o Sr. Guterres para discursar com o Bob Geldof? Pode ser que tenha de abandonar a sala, também!
 
 
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