Opinião


O admirável mundo dos ‘chips’

A ideia de deixar obrigatoriamente registo da passagem quando se circula na auto-estrada é um primeiro passo em direcção a um mundo perigoso.

Pedro Adão e Silva

Este fim-de-semana ficámos a saber que o Governo vai apresentar uma proposta de autorização legislativa para introduzir um ‘chip’ na matrícula de todos os veículos. A novidade foi apresentada assentando num conjunto de soluções virtuosas para todos (Estado, concessionários das auto-estradas e naturalmente os proprietários dos automóveis). Tudo feito com um fascínio com a inovação tecnológica que se tornou moda e recurso acrítico para superar as dificuldades que enfrentam as políticas públicas. Afinal, de acordo com o Expresso, “Portugal quer ser pioneiro nas matrículas electrónicas” ou, nas palavras do secretário de Estado das Obras Públicas, “potenciar um ‘cluster’ na área da telemática rodoviária”.

O ‘chip’ terá informação sobre o seguro automóvel, a inspecção periódica e permitirá pagar portagens. Aliás, os sinais de que a introdução do ‘chip’ visa essencialmente permitir a cobrança de portagens nas SCUT, nas quais não foram inicialmente construídas praças de portagens e onde se afigura difícil construí-las, são evidentes. Contudo, nas palavras do membro do Governo, o objectivo do ‘chip’ é bastante prosaico: “aumento da segurança rodoviária, pelo acréscimo de fiscalização. Fiscalizar veículos e não pessoas”. Afinal, uma solução não muito diferente da da Via Verde, pelo que os riscos de estarmos a construir um ‘big brother’ através da circulação rodoviária estariam afastados. Estarão de facto?

Aparentemente não. Desde logo porque a adesão à Via Verde é duplamente voluntária. Só subscreve o serviço quem o deseja e mesmo quem tenha o dispositivo é livre de não o utilizar, podendo optar por pagar portagem de modo tradicional se assim lhe aprouver. A ideia de deixar obrigatoriamente registo da passagem quando se circula na auto-estrada é um primeiro passo em direcção a um mundo perigoso, em que autonomia individual e direito à privacidade começam lentamente a ser confiscados pelo Estado.

Claro que há benefícios em termos de organização social resultantes desta solução, mas alguém duvida que há muitos mecanismos de engenharia social que permitiriam tornar mais eficaz o funcionamento das nossas sociedades, não fora o facto de colocarem em causa direitos, liberdades e garantias? Acontece que a superioridade da democracia liberal não radica nas boas soluções para a organização social, baseadas na modernização tecnológica, mas, acima de tudo, no primado da lei e no respeito pelas liberdades individuais. Neste ‘trade-off’ temos de ser intransigentes, até porque, se sabemos como começam estas coisas, temos boas razões para temer o modo como elas acabam. Afinal, não é difícil pensar em justificações para a introdução de um ‘chip’ individual que, por exemplo, ajude no controlo sanitário ou na busca de crianças desaparecidas.

Como sempre acontece nestes temas, é-nos dito que as razões para alarme são injustificadas: haverá uma entidade que regulará o sistema e que administrará a informação. Uma entidade insuspeita e repleta de mecanismos de controlo. Ora, não é preciso fazer um grande esforço de memória para nos recordarmos de uns quantos exemplos de informação que deveria ser absolutamente privada, sigilosa (e aliás nunca deveria ter sido recolhida) e que foi impunemente divulgada em vários órgãos de comunicação social. O que é que nos garante que outro tipo de informação uma vez recolhida não possa ser usada de modo abusivo?

Dir-me-ão que se trata apenas de um ‘chip’, cuja introdução não viola a Constituição e que os riscos associados à sua introdução são inexistentes e que os benefícios são evidentes. Pode ser tudo verdade, mas a sua introdução aponta para um admirável mundo em que se combina fascínio com a modernização tecnológica e erosão das liberdades individuais. Há, aliás, umas quantas descrições literárias de distopias que começaram assim.

P.S. A semana passada, escrevi aqui que o caso Maddie, até por confirmar um padrão de actuação da Polícia Judiciária, devia colocar em sobressalto todos os que defendem intransigentemente o Estado de Direito. Esta semana ficámos a saber que Robert Murat foi constituído arguido pelo desaparecimento de uma criança, situação em que se mantém há 13 meses, porque uma jornalista achou que ele tinha um comportamento estranho. Isto já não vai lá com indemnizações que reparem danos. Se os responsáveis por este tipo de situações continuarem impunes, só podemos concluir que o país está, no mínimo, a ficar irrespirável. E perigoso.
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Pedro Adão e Silva, Investigador do Instituto Universitário Europeu

Comentários
 
vg
De uma maneira ou de outra ,já andamos todos "chipados".(Se estivesse em prática ,há anos ,evitaria a Carlos Cruz aquelas malas cheias de talões da Brisa...)PS-deve ser a mesma certeza que permite os policias reformados afirmarem que a criança morreu na altura.No caso do Murat foi uma jornalista-pisteira inglesa.Rico nariz..
 
LOPES CARLOS
1.A esmagadora maioria dos Portugueses não comete crimes e não anda escondida a fugir de mandados de captura. Assim, poucos receiam que se saiba por onde andam as viaturas que compraram,que registaram,que levaram ao controle técnico,até porque pagam os Seguros e conduzem com CARTA. 2.Mesmo nos bairros ditos "problemáticos", a esmagadora maioria das Pessoas quer é viver em paz e ver-se livre dos GANGUES que se dedicam a vários tráficos( armas,drogas,Pessoas). 3.O que as Pessoas Comuns querem MESMO é que Portugal deixe de ser o Estado socialmente MAIS INJUSTO na repartição dos rendimentos e querem ACESSO EFECTIVO ao Mundo do Trabalho.As Pessoas Comuns deixam para os politicamente correctos com altos rendimentos as questões "fracturantes".
 
Realista
Concordo com o autor. Qualquer dia metem-nos um chip debaixo da pele, como já é obrigatorio para os cães e outros animaizinhos de estimação. Tambem concordo com o comentario sobre a acusação a Robert Murat. Aliás (talvez não venha a propósito e não disponho de tempo para explicar) eu subscrevo inteiramente as declaraçoes (as primeiras, as originais) do Dr Marinho Pinto sobre a Justiça e os juizes. Na mouche!
 
Sdaburra
Se o sr Hitler tivesse disposto da tecnologia actualmente disponível, provavelmente hoje seríamos uma sociedade de escravos todos iguais, todos arianos, todos com 1,80 m, todos de suástica na lapela, todos extremamente felizes. Infelizmente por cá temos gentinha que, bem treinada, vai bater todos os velhos ditadores aos pontos. Com matrículas electrónicas, cartões únicos e chips debaixo do sovaco não vai escapar um cêntimo aos cofres sem fundo deste estado miserável, mau pagador e péssimo prestador de serviços. Será que eles também vão pôr chips nas malas que vão para a Suiça e para outros paraísos fiscais carregadinhas de euros ? Ou isso não lhes interessa, o que interessa é esmifrar o zé até ao mais fundo do tutano? Isto para não falar das liberdades fundamentais que, como se sabe, ainda é de longe o mais importante, as quais correm sérios riscos de desaparecer. Mas só até ao dia em que o zé se encha de vez desta gentalha controleira e resolva correr com eles de uma vez por todas para bem longe.
 
maria
Mundo perigoso e injusto é o que vivemos, onde uns pagam e sao honestos e outros com tudo falsificado e sem pagar impostos a circularem livremente. Quem não deve não teme. O sol quando nasce é para todos e nisso o governo deve obrigar a todos serem iguais no pagamento dos impostos. Deixemo-nos de tretas.
 
Zé Cardoso
De chip em chip até à pulseira electrónica para cada cidadão, penso que vai um pequeno passo. Claro que ficarão de fora a ASAE e o os seus criadores "simplex", para fazerem o contrôle tipo PIDE!
 
CSMA
Eu não quero um big brother tipo socrates ou outro a controlar a minha vida como tal NÃO vou aplicar o tal chip e se o meu carro novo já estiver equipado vou arranjar maneira de o destruir.Não é dificil basta passar um IMEN forte pelo chip e este tal como o socrates vai desta para melhor. Tenho direito á minha LIBERDADE e estou disposto a lutar por ela e VOÇES????
 
FC
O argumento foi não tem fundamento se é facilmente quebrável. Ora, também o uso de passaporte e o registo de entradas e saídas nos aeroportos os são... Não vale a pena explicitar mais argumentos a favor do chip que ainda por cima reduz as emissões (visto que os carros não param nas cabines)...
 
jorge (luis-jorge@mail.telepac.pt)
Quero ver se os "manda-chuva" também são obrigados a usar o chip!!!! Se assim for, quando forem para a pedofilia são logo detectados!!
 
NapoLeão
Então os famosos, os futebolistas do clube que todos "amamos" já não podem fazer as suas escapadelas ? Chips em Portugal ?
 
FM
PARABENS “CSMA”!! Foi O comentário mais inteligente que vi aqui, não é a toa que odeio o pais...assim como não é a toa que Portugal foi o que foi e agora é essa “coisa” que é...desde que dêem pão e circo até chip na peida deixam meter...e dizem que nada tem a esconder!!! Não basta as fianças, os bancos, e os registos médicos saberem toda a história do individuo agora até chips querem colocar nos seus veículos!! E tem totós aqui a dizer “quem não deve não teme” e a falar no Carlos Cruz etc, etc Portugal tem o destino que merece e a culpa não é só dos políticos o povo também é altamente medíocre e pequenino no passado teve rasgos de visão...muito breves...desde essa altura tem sido o descalabro intelectual que vemos agora CSMA concordo com a tua posição sobre o assunto...caso não consigas nada, faz as malas e põem-te ao fresco para longe desse esterco
 
Cília Bacalhau
Português que se preze deve ter um chip! E são estas coisas de lana caprina que comovem os portugueses!
 
PIDE - DGS
PIDESCO são as ideias avulsas deste Governo. DGS, DiGitaiS são as marcas que pretendem seguir para marcar todos os cidadãos. PAGAR mais 10 euros ao ROBIN DOS BOSQUES para ele me acertar com suas flechas? NEM PENSAR!
 
Bonifácio (boni@freemail.com)
Primeiro passo? Acho que não, já estamos a chegar ao fim do caminho. Duvidam? Vejam o documentário "Endgame". Está disponível no youtube. Vale a pena investigar o que lá é mostrado.
 
Mario Costa
Com tanta proibição e tanto controlo já estamos pior do que no tempo do fascismo . E nunca esquecer que o Hitler fazia parte do Partido Socialista dos Trabalhadores
 
liberdade
Quem votou no socrates, mal sabia que estava a eleger um novo salazar....ele á o noco codigo do tarbalho, é chips.... and so on.....
 
alberto
Cabe aos cidadãos travar estas derivas paranóicas do governo, é um verdadeiro atentado à liberdade de circulação. Esta de dizer que querem controlar viaturas e não as pessoas é um insulto à inteligência do portuga. Começa a ser um governo inimputável em algumas matérias...e há que travá-los!
 
Mox
Sr. Pedro Adão e Silva, se o Ship só trás informação sobre Seguros, Inspecção e pagamento de portagens, não vejo qual o mal e não tira liberdade a ningúem. Se pretende ir para algum lugar de carro e que se queira esconder de algúem, vá pelas estradas nacionais. O mais engraçado é que desde que a net chegou, as pessoas expõem as suas vidas mais do que nunca, por vezes porque querem, outras porque não nem sabem. Damos o nosso mail a uns e a outros, inscrevemo-nos em sites, damos o nosso nº de telemóvel, assinamos documentos que incluem angariação de dados pessoais para serem utilizados para outros fins, etc. Mas 90% das pessoas não comenta este facto e até acha normal. Se o governo quer introduzir um ship onde se pode saber a informação do carro... do carro não das pessoas, já nos encontramos no limiar da privacidade.
 
LL
Este (des)governo é um pagode! O ministério das obras públicas não encontra melhor forma de “potenciar um ‘cluster’ na área da telemática rodoviária” senão criar um novo imposto para subsidiar umas empresas "amigas". Qual novo imposto? O que pagaremos todos os possuidores de veículo automóvel pelo dito aparelho. A Via Verde é privada, compra quem quer e traz benefícios aos utilizadores. O big-brother móvel é estatal, pagamos todos e é de utilidade mais que duvidosa, além de esmagar uns quantos direitos e liberdades dos cidadãos. Com este ramalhete de qualidades é mais que óbvio o entusiasmo deste governo!
 
 
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