Opinião


Ponto final nas metas de inflação

Quando o monetarismo caiu em descrédito – com elevados custos para os países que por ele se deixaram enfeitiçar –, começou a demanda de um novo mantra.

Joseph E. Stiglitz

Os banqueiros centrais são um clube unido. No início da década de 80 sucumbiram ao feitiço do monetarismo, teoria económica simplista patrocinada por Milton Friedman. Quando o monetarismo caiu em descrédito – com elevados custos para os países que por ele se deixaram enfeitiçar –, começou a demanda de um novo mantra.

A resposta chegou sob a forma das “metas de inflação”, corrente que defende que sempre que o preço ultrapassa a meta fixada se devem aumentar as taxas de juro. Esta “corrente”, além de não obedecer a qualquer teoria económica, carece de provas empíricas. Resta-nos esperar que a maioria dos países tenha o bom senso de não implementar as metas de inflação, mas deixo aqui as minhas condolências aos cidadãos dos países que enveredarem por este caminho, como é caso, para citar apenas alguns, da Polónia, Brasil, África do Sul, Canadá, Noruega e Reino Unido.

Hoje em dia, as metas de inflação estão a ser postas à prova – e tudo indica que não irão passar no teste. Os países em desenvolvimento enfrentam actualmente taxas de inflação elevadas devido à escalada dos preços do petróleo e dos bens alimentares, que representam uma fatia média do orçamento familiar muito superior à dos países ricos, e não devido à má gestão macroeconómica. Na China, por exemplo, a inflação ronda os 8%; no Vietname estima-se que atinja os 18,2% ainda este ano; e na Índia, situa-se actualmente nos 5,8%. A inflação dos EUA, pelo contrário, mantém-se nos 3%. Quer isto dizer que os países em desenvolvimento devem aumentar as suas taxas de juro para valores acima da taxa de referência norte-americana?

A inflação nesses países é, em grande parte, importada, pelo que o aumento das taxas de juro não teria grande impacto no preço internacional dos cereais ou do petróleo. Dada a dimensão da economia norte-americana, é mais provável que uma desaceleração nos EUA tenha maior impacto nos preços globais do que uma desaceleração nos países em desenvolvimento. E enquanto estes se mantiverem integrados na economia global – e não tomarem medidas para restringir o impacto dos preços internacionais nos preços nacionais -, os preços nacionais do arroz e de outros cereais estarão sujeitos a fortes aumentos quando os preços dispararem a nível internacional.

Aumentar as taxas de juro pode reduzir a procura agregada e esta pode, por sua vez, desacelerar a economia e atenuar a subida dos preços de alguns bens e serviços, especialmente os não transaccionáveis. Mas não pode, por si só, reduzir os níveis de inflação para as metas fixadas. Acresce que se os preços globais da energia e dos bens alimentares aumentassem de uma forma mais moderada do que na actualidade – 20% ao ano, por exemplo – e se se reflectissem nos preços nacionais colocando a taxa de inflação geral nos 3%, os preços teriam forçosamente de cair. Ora, isto levaria a uma forte desaceleração da economia e à escalada do desemprego. Em suma, seria pior a emenda do que o soneto.

Que deve ser feito? Primeiro, os políticos, ou banqueiros centrais, não devem ser responsabilizados pela inflação importada, tal como não devem ser elogiados pelos baixos níveis de inflação quando o ambiente económico global é benigno. Actualmente, reconhece-se que o ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, é um dos principais responsáveis pelo caos económico em que hoje se encontram os EUA. Também é amiúde elogiado por ter mantido a inflação baixa durante o seu “consulado”, mas importa lembrar que os EUA beneficiaram, nesse período, da descida dos preços das matérias-primas e da deflação na China.

Segundo, os defensores da liberalização do comércio sempre elogiaram as suas vantagens, mas omitiram os seus verdadeiros riscos, contra os quais os mercados raramente garantem a protecção necessária. E quando é a agricultura que está em causa, os países desenvolvidos protegem agricultores e consumidores dos riscos inerentes à liberalização. Impõe-se, por isso, rever os subsídios aos biocombustíveis para evitar que mais solos aráveis se transformem em campos de produção energética. Mais: alguns dos milhares de milhões gastos em subsídios aos agricultores ocidentais devem agora ser canalizados para os países em desenvolvimento, para os ajudar a encontrar soluções para as suas necessidades alimentares e energéticas.

Mas não só. Tanto os países em desenvolvimento como os países desenvolvidos devem abandonar as metas de inflação, visto o enfraquecimento da economia e o aumento do desemprego daí resultantes não terem impacto suficiente na inflação. Sobreviver nestas condições será ainda mais difícil.

Tradução de Ana Pina
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Joseph E. Stiglitz, Prémio Nobel da Economia em 2001

Comentários
 
Realista
Ler este artigo deu-me muito gozo e vindo de um prémio nóbel ainda mais. A inflação generalizada é importada e resulta em grande medida do aumento do preço do petróleo e dos produtoa alimentares. Combater este aumento da inflação com aumento nas taxas de juro só traz uma muito pequena melhoria na inflação e um empioramento grave do crescimento económico. Mas o autor refere-se sobretudo aos países em vias de desenvolvimento, onde a energia e a alimentação pesam muito no cabaz de compras. Certo! Mas o argumento tambem é válido para o BCE, para o Sr Trichet. É tempo de mudar de mantra!
 
C.q
Completamente de acordo..... A actual politica do BCE não nos vai levar a lado nenhum
 
Mrrm
Tenho um amigo norueguês,que ganha 90.000 USD por ano como aliás é norma nesse país, que aceita as suas sentidas condolências. Mais, recomenda que o sr. tome um xarope de 2 em 2 horas e que veja que há vida para além do grande bigode que a Hilária levou do Obama. Acontece aos melhores, a aos piores também. MMartins-Sintra
 
Pesro Pais
Podemos chegar à inflação do Zimbabué e o caos em que se encontra. Contendo a inflação cnsegue-se pelo menos ter mão numa parte importante da economia caso contrário é a politica do deus-dará.
 
JMCAGE
O monetarismo nao é exactamente isto. Friedman nunca disse que a resposta a um choque externo na oferta (subida do preco do petroleo) deve ser combatido com aumentos da taxa de juro. Isso é tao óbvio que nem vale a pena dizê-lo. Que outros nao tenham percebido, isso é outro problema. Agora que, NA AUSENCIA de choques na oferta, controlar a taxa de juro e a inflaccao tem todo o sentido, isso também é óbvio. É preciso medir o contrafactual, ou seja, o que teria sido se se tivessem seguido outras politicas. Quanto ao facto de Greenspan ser (ter sido) um bocado incompetente, isso já se percebeu. Mas quanto à catastrofe nos EUA, essa vem mais da guerra, e menos da gestao de Greenspan. Stiglitz pode ter o PN, mas nao deixa de ter a sua agenda.
 
Maria Trindade
QUEM CONTROLA O SR. TRICHET, QUE AUMENTA CONSTANTEMENTE AS TAXAS DE JUROS? ALGUÉM PODE ENVIAR-LHE ESTE ARTIGO PARA PELO MENOS ELE VERIFICAR QUE A SUA POLITICA NÃO É INEVITÉVEL E HÁ OUTRAS OPÇÕES?PERANTE RESULTADOS TÃO NEGATIVOS QUE PREJUDICAM MILHÕES DE PESSOAS NÃO SERIA JÁ TEMPO DE "ENQUADRAR" O BCE?
 
José Agostinho
Um Prémio Nobel que pensa, ainda bem em proteger e elucidar os mais desfavorecidos. Leiam o livro: " GLOBALIZAÇÃO. A Grande Desilusão. Joseph E. Stiglitz" editado em 2002. Podemos ler em certo capítulo: Para os agricultores dos países em desenvolvimento que trabalham para liquidar as dívidas dos seus países ao FMI ou para os empresários que suportam o aumento da taxa do IVA imposto por esta instituição, o sistema actual que impera no FMI é o da tributação sem representação. A desilusão com o sistema internacional de globalização sob a égide do FMI vai aumentando, enquanto os pobres da Indonésia, Marrocos ou Nova Guiné vêem cortados os subsídios ao combustível e aos produtos alimentares, enquanto a Tailândia vêem a SIDA a aumentar devido aos cortes impostos pelo FMI nas despesas de saúde e enquanto que, em muitos países em desenvolvimento, as famílias, obrigadas a pagar a educação de seus filhos, (veja-se o que se passa em Portugal), no âmbito do chamados «programas de recuperação de custos», fazem a opção penosa de não mandar as suas filhas para a escola. Sem alternativas, sem possibilidade de expressarem as suas preocupações, de pressionarem para suscitar a mudança, as populações revoltam-se. É claro que não é nas ruas que se discutem os problemas, que se formulam as políticas ou que se forjam os compromissos. Mas os protestos obrigaram os governantes e os economistas de todo o mundo a pensar em alternativas às políticas do Consenso de Washington, que lhe foram apresentadas como o único e verdadeiro caminho para o crescimento e o desenvolvimento". Continua. Para maior esclarecimento do que se passa na Economia a nível mundial, desde`há décadas, é obrigatório ouvir e ler, o Prémio Nobel, Joseph E. Stiglitz.
 
Reality
Só posso parabenizar pelo excelente artigo. De facto a obsessão do BCE pela inflação, apenas via prejudicar a Europa e em especial Portugal. O M. Trichet vai ser saìr com elogios rasgados ao controlo da inflação, mas vai levar a Europa à beira da falência.
 
ricardo
Caros amigos quem pediu emprestimos principalmente de grande monta tinha que ter reflectido bem no que tava a fazer, os bancos embora sejam "chupistas" não obrigaram ninguem a assinar os contratos e essa de dizer que que o povo é ignorante e não sabia o que tava a fazer já não pega quiseram entrar na basófia agora sofrem as consequencias, a inflação é que não pode disparar deliberadamente porque isso atinge aqueles que só têm para comer e essas pessoas têm que ser protegidas. Se não se pode ter uma casa de 30 mil contos vende-se e compra-se uma mais barata (não faltam aí) se não se pode ter um carro novo de 4 mil contos tem-se um mais modesto (há aí grandes máquinas por 600 700 800 1000 contos), deixem-se de basófias e de tar sempre a queixar-se, os que só têm para comer é que não podem ser mais pressionados, os que estão a pagar juros é porque pediram dinheiro e gastaram ás vezes sabe deus como.
 
vg
Curioso como estes Nobeis e cª falam das taxas de juro sem referir o indicador total de crédito M3.Será que no tempo dele ainda não havia?..
 
NapoLeão
Nunca morri de amores pelo "Chicago Boys" nem pelos seus seguidores com destque para o falecido Pinochet, que bons padrinhos teve. E quanto a Mantras...debudismo pouco sei. O que sei é que o camarada socialista Almeida Santos, ex-PdAR se queixava ao Dn de domingo que tinha "uma ridícula" reforma de 700 mensais. Alguém de juízo perfeito ousará discordar da reforma do camarada ? É que 3500 euros/mês não dá para aguentar o aumento das taxas de juros defendido pelo BCE !
 
 
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