Investir na África do Sul

O rei português do ‘fast food’

Mónica Silvares, em Joanesburgo e António Sarmento, em Lisboa  
30/10/07 01:05


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Fernando Duarte é dono da Nando’s, a segunda maior cadeia de restaurantes de frango do mundo. Logo depois da americana Kentucky Fried Chicken.

O modo de preparação do frango obedece a uma fórmula mágica: são criados durante 41 dias, altura em que atingem o peso ideal (800 gramas); a gordura é removida com muito cuidado; e a carne é grelhada num fogão a gás. O que parecia uma desvantagem - não ser cozinhado a carvão - acabou por ser decisivo para o sucesso do negócio. “Assar no churrasco é fácil para quem tem apenas uma loja ou duas. Mas com muitas…”, explica Fernando Duarte, 50 anos, ao Diário Económico.

De facto, a uniformização dos restaurantes permitiu-lhe crescer à escala mundial.  Actualmente, a cadeia Nando´s tem 700 estabelecimentos próprios e franchisados espalhados por 33 países. Um feito que faz da marca a segunda maior cadeia de restaurantes de frango do mundo, depois do Kentucky Fried Chicken (KFC). Austrália, Inglaterra, Paquistão, Arábia Saudita e Líbia são algumas das nações onde o frango com piri- piri se transformou num prato de culto. E em todas as lojas do planeta, misturam-se os clientes de todas as bolsas. Ali, comem um prato saboroso, são servidos rapidamente e não é preciso seguir as regras de etiqueta: pegar no frango à mão é normal entre os adultos e as crianças podem fazer o barulho que quiserem.

Quem os serve são os Nandocas, nome pelo qual são conhecidos os empregados de Fernando Duarte. Conhecem de cor e salteado o processo de confecção dos frangos e a história dos dois símbolos da marca: o galo de Barcelos e o escudo da bandeira portuguesa, que estão nas ementas e nos letreiros dos restaurantes. “O facto do galo se levantar e cantar faz-nos identificar com os valores da marca do Nando’s”, diz o empresário. Já o escudo da bandeira portuguesa foi escolhido porque representa “um símbolo que promete dar a qualidade e o sabor que todos os clientes esperam. É também uma forma de ligar a marca a Portugal”.  

O primeiro restaurante Nando nasceu em Setembro de 1987, num pequeno subúrbio de Joanesburgo, chamado Rosettenville. Este local era, à época, o coração da comunidade portuguesa naquela cidade sul-africana. Grande parte tinha acabado de chegar de Moçambique e tinha saudades dos pratos de comida portuguesa.

O prato mais vendido continua a ser o mesmo da década de 80. Isto é, nenhuma outra receita consegue bater o meio-frango com piri-piri. “Era um dos pratos favoritos dos portugueses em Moçambique. Foi a junção do frango, com o picante, produto tipicamente africano, que criou o prato mais vendido do Nando´s”, conta Fernando Duarte.

Curiosamente, a marca não teve sucesso em Portugal. Fernando ainda tentou introduzir o  conceito e abriu duas lojas: uma no aeroporto da Portela, em Lisboa, e outra na praia da Rocha, em Portimão. Ao contrário do que se verificou nos outros países, a clientela não era muita. Só o restaurante do Algarve deu algum lucro no período de Verão. “Tivemos problemas ao nível da gerência. Mas havemos de voltar”, promete o empresário.

Por outro lado, o negócio vai de vento em poupa em todos os outros países. Na África do Sul, por exemplo, além das 250 lojas, já está em curso um projecto para abrir mais 150. Um reflexo do crescimento da economia. “A classe média cresceu e isso criou novas oportunidades de negócio”, diz. Em Inglaterra, a cadeia conta com 170 lojas e é a partir daqui que a marca quer crescer para França, Espanha e tentar, de novo, Portugal. Nas nações árabes, como Paquistão, Oman, e Qatar, o êxito é ainda mais visível. Chegam a ser servidas 30 mil refeições diárias e o número de vendas não diminuiu na época do Ramadão.

Fernando arranjou um truque para que tal fosse possível: investiu em publicidade. E a criatividade valeu-lhe, e à agência Tonnic Communications, dois prémios de publicidade, um em Nova Iorque e outro em Cannes. “Ele é muito ponderado e estuda muito a entrada em novos mercados. Arrisca, mas com os pés bem assentes na terra”, afirma o amigo Rui Martins, representante dos molhos do Nando´s em Portugal. Na Malásia e na Indonésia, por exemplo, também passam anúncios na televisão. Só na África do Sul, o Nando gasta cinco milhões de euros em publicidade, valor que corresponde apenas a 5% da facturação anual, que se estima em 100 milhões de euros.

Fernando Duarte, natural do Porto, chegou à África do Sul com quatro anos. Pouco depois, o pai enviou-o para Moçambique para aprender a falar português. Quando regressou, aos 16 anos, começou à procura de emprego. “O meu pai tinha uma empresa de construção e queria que eu me juntasse a ele. Mas a construção não me dizia nada e acabei por preferir o ramo da electrónica”, explica ao Diário Económico. Em 1985, entrou para uma empresa chamada Teltron e, rapidamente, ascendeu a director técnico.

Quando a companhia foi vendida, numa fase em que a economia sul-africana estagnou, Fernando tinha de tomar uma decisão: voltar para Portugal ou ficar em África e arriscar um negócio por conta própria. Optou pela segunda hipótese. “Juntamente com o meu colega Robert Brozin, cujo pai era o proprietário da Teltron, entrámos no ramo da restauração”, diz. Abriram o primeiro restaurante em Rosettenville e continuaram a crescer.

Hoje, a dupla de empresários passa a maior parte do tempo em reuniões nos três escritórios da empresa espalhados pela capital sul-africana, mas Fernado Duarte nao gosta de passar muito tempo fechado – e prefere reunir em cafés. A hora das refeições também costuma ser passada nos restaurantes. Fernando nunca se farta de comer frango. “Temos paixão por aquilo que fazemos e, por isso, comer frango quatro a cinco vezes por semana é uma coisa natural”, diz. Fazer uma alimentação à base de carne é quase tão normal como ser assaltado. “Há alturas em que os nossos restaurantes são assaltados várias vezes por mês. É possível estar aqui a almoçar e entrar de repente um gangue armado”, conta. Em 2003, Fernando também foi assaltado na sua própria casa e, durante duas horas, teve uma pistola apontada à cabeça. “Só pensava na minha mulher e nos meus dois filhos.”

Para se refazer do susto, Fernando encontrou o refugio ideal. Ao fim-de-semana, a família costuma ir para uma casa de campo, numa reserva, onde se pode jogar golfe, praticar exercício físico e descontrair num ‘spa’. E ver animais selvagens como girafas e zebras. A Portugal, vai “quatro vezes por ano. O meu filho mais velho esteve lá seis meses a trabalhar na Porto Editora. Aprendeu um bocadinho de português ”, diz.

No próximo dia 13 de Novembro, a cadeia Nando´s celebra 20 anos. Todas as lojas sul-africanas vão fechar nesse dia e os 6500 nandocas que trabalham no país estão convidados para um festa de arromba em Joanesburgo. Fernando não quer que ninguém falte e mandou fretar 500 aviões. Quando se tem a segunda maior cadeia mundial de restaurantes de frango, pode prescindir-se da facturação por um dia. Mas será que os amantes de frango vao aguentar?


Menu Nando’s
O prato mais vendido no Nando’s, em todo o mundo, é o meio frango grelhado com piri-piri. Uma especialidade, dizem. A refeição é acompanhada de batatas fritas, arroz, salada e pão. Na África do Sul este prato custa 43,95 rands (cerca de cinco euros). O frango é sempre cozinhado da mesma forma em todos os países do mundo onde a marca está presente. Quem quiser, pode optar pelo quarto de frango, que custa 19,95 rands (2,35 euros). Se forem quatro pessoas à mesa, os empregados aconselham o frango inteiro. Custa 89,95 rands (10,60 euros). Por causa dos altos índices de violência da África do Sul, grande parte das refeições não são consumidas nos restaurantes. Foi sobretudo por essa razão, que o empresário português implementou o serviço de ‘take away’ sem custos adicionais.


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