Edição Impressa - Finanças

Entrevista a Costa Pinto, presidente da Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo 2008-05-12 00:05

“Não há ninguém na banca que não tema a crise”

Costa Pinto defende que o Crédito Agrícola está preparado para a crise. Os planos de expansão tiveram, no entanto, de ser revistos.

Maria Ana Barroso e Sílvia de Oliveira

João Costa Pinto, presidente da Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo e economista, avança, em entrevista ao Diário Económico, os possíveis efeitos da crise financeira e admite que o próprio banco teve de abrandar os seus planos de expansão. O antigo vice- -governador do Banco de Portugal defende a actuação do supervisor no caso BCP e teme os efeitos das críticas na credibilidade de Portugal no exterior.

Dada a sua já longa carreira profissional, como encara esta crise financeira?
Deixa-me preocupado. Não há nenhum colaborador de qualquer instituição financeira, que tenha a percepção das características  da crise que não esteja preocupado. O que se passou indica que o brilhante sistema financeiro internacional falhou o teste de mercado. Desenvolveu-se um movimento de inovação que criou riscos que ninguém admitia que pudessem ter estas características, surpreendendo bancos e supervisores.

Tem sentido uma maior pressão por parte da supervisão fruto da conjuntura?
A partir do momento que a crise afectou o mecanismo básico e fundamental de que depende a actividade dos bancos, é evidente que isso preocupa os supervisores, que estão com uma atenção acrescida a certos aspectos da situação da banca que antes não estavam tão presentes, como o da liquidez. E aqui a situação do grupo é especial porque não depende de financiamento alheio.

O caso BCP também trouxe um aumento da atenção do Banco de Portugal?
É natural que tudo o que afecte grandes instituições, pelo impacto que tem na opinião pública  e credibilidade do País, preocupará particularmente a supervisão. No caso do grupo, e é só sobre isso que posso falar, o que vimos como normal e até desejável, foi o redobrar da atenção e contactos com os bancos, em particular por causa da liquidez do sistema.

Mas não atribui essa atenção também ao caso BCP?
No que diz respeito às relações entre o grupo e o supervisor, nada me permite dizer isso.

Como alguém que fez parte do Banco de Portugal, como vê as críticas que à actuação da instituição?
Numa economia global, a credibilidade e imagem do sistema financeiro de um país é crucial. Em particular em Portugal, uma economia com um défice externo acentuado que ao longo da última década foi sistematicamente financiado pelo balanço dos bancos. O Banco de Portugal demonstrou, nomeadamente na última década, que conseguiu  preservar a a credibilidade dos bancos. Vejo com preocupação todas as acções que – em meu entender injustamente – afectem a imagem de uma instituição central como é o Banco de Portugal.

Acha portanto que é uma irresponsabilidade?
Eu não diria irresponsabilidade porque em democracia tudo pode ser questionado e isso não se põe em causa. Tem é de ser feito com extremo cuidado. Só ainda não tivemos um problema mais complexo de financiamento do défice externo português porque fazemos parte da união monetária. Isso dá-nos algumas garantias.

Mas não é legítimo questionar que não se tenha detectado nada?
É legítimo. Mas creio que o   governador já deu explicações claras sobre a sua actuação. E basta olhar para outros países para ver que é por vezes extremamente difícil a uma autoridade de supervisão, por mais eficiente que seja, detectar certos problemas. Sobretudo sendo grupos de grande dimensão e  complexidade.

O facto de o banco  ter um mal parado elevado não é uma desvantagem para enfrentar a crise?
O nível de aprovisionamento que o grupo tem é confortável. E o esforço de modernização dos últimos anos apetrechou-o de capacidades técnicas e operacionais para uma adequada avaliação do risco.  O Crédito Agrícola, mantendo ainda uma taxa média de mal parado um pouco superior à média, está perfeitamente preparado para os desafios desta conjuntura. Nos últimos anos, houve um corte do rácio de mal parado de 7,5% em 2003 para 3,5% em 2007.

Já começa a sentir necessidade de rever em alta alguns spreads?
Não propriamente. À medida que a economia real vá absorvendo as pressões do aumento do custo de financiamento,  e isso resulte num abrandamento económico e aumento do desemprego, isso acabará por se reflectir em clientes do Crédito Agrícola como da banca em geral. E nesse caso reagiremos como outros, com um afinamento de preços versus risco.

O plano de crescimento de balcões que o grupo tinha teve de ser repensado por causa da crise?
O plano de abertura de balcões tem duas áreas: aberturas no país por parte das caixas, que continua normalmente, e a abertura de balcões da Caixa Central em Lisboa e Porto. Decidimos de facto, quanto a este último, desacelerá-lo face ao que estava previsto.

O que vai então ser feito?
Estamos a avançar com a abertura de um número restrito de balcões (meia dúzia) em Lisboa e Porto. Tínhamos um programa mais ambicioso. Vamos testá-los e fazer uma pausa, para ver como evolui o mercado bancário e a economia. No total, até ao fim do ano, deveremos ultrapassar os 650 balcões [647 no final de 2007].

Que avaliação faz da situação da economia portuguesa?
Nos últimos dois anos houve uma evolução positiva da situação orçamental e isso deveu-se muito a um aumento da eficiência da máquina fiscal. Há depois um consenso entre economistas que é importante manter uma situação orçamental controlada. É evidente que gostaríamos que a consolidação tivesse também passado mais pela despesa, embora tenha sido feito um esforço, com as novas regras da segurança social e com o sacrifício do poder de compra dos funcionários públicos. Era muito difícil conseguir alguns resultados sem isto. Temos de ser realistas e ter presente a enorme complexidade da situação actual.

Que retrato do impacto da crise?
Decorre de três factores. Por um lado, o impacto do aumento do preço do petróleo, matérias-primas e alimentação. Se  a evolução  for a esperada, o impacto sobre a balança comercial portuguesa e défice externo será enorme. Além do impacto inflacionista interno. Depois há o comportamento de Espanha, com que nos últimos vinte anos intensificámos relações. Duvida-se que as medidas das autoridades espanholas sejam suficientes para evitar uma desaceleração muito forte. Isso vai reflectir-se em Portugal. Por outro lado, há o financiamento do défice externo que tem passado muito pelo balanço dos bancos. A crise financeira internacional vai ter reflexos no seu custo. A não ser que haja uma alteração muito significativa das condições financeiras e no mercado da energia e matérias-primas, que neste momento não se vê, a economia portuguesa será afectada. Sendo ainda difícil avaliar até que ponto.

Mas o Governo ainda não reviu em baixa as previsões do crescimento.
Penso que já nem o próprio governo acredita. O Governo terá decidido esperar pela evolução da economia no primeiro trimestre antes de reavaliar previsões. Agora que tudo indica que vai ter de haver uma revisão em baixa. Isso hoje ninguém duvida.




Comentários
 
Leandro Coutinho (L_Coutinhofr@Yahoo.fr)
É preciso que Instituições como as Caixas de Crédito Agrícola mutuo se expandam e ganhem quota de mercado.. Em simultaneo, também o Montepio deve ter outro alento.. assim, a rapacidade dos banqueiros comerciais pode ser travada.. podem ser postos em sentido..
 
 
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