Após o registo de perdas relacionadas com o subprime num montante superior a 300 mil milhões de dólares, o sector financeiro procedeu a um forte movimento de recapitalização através de aumentos de capital e da emissão de dÃvida. Este movimento e as diversas acções tomadas pelos principais Bancos Centrais conseguiram transmitir confiança aos mercados, pois: por um lado, a acção dos bancos centrais indica que estes deverão agir antecipadamente evitando uma crise sistémica do sistema financeiro; por outro lado, a recapitalização dos bancos permitiu um reforço da sua posição financeira, tornando-os mais resilientes a futuros desenvolvimentos negativos nos mercados de crédito.
Mas embora a situação actual se apresente mais favorável, as distorções nos mercados de crédito permanecem, em especial nos mercados interbancários. As taxas de juro nestes mercados continuam a situar-se bem acima das taxas de referência dos bancos centrais o que poderá significar que os bancos continuam com problemas de liquidez mas também que o clima de confiança ainda não se encontra plenamente restabelecido e que por ora os bancos preferem reter liquidez ao invés de ceder. Mais ainda, os bancos enfrentam desafios a vários nÃveis para a sua actividade, nomeadamente: ao nÃvel da banca de investimento, em que o volume de negócios tem diminuÃdo; ao nÃvel da banca a retalho, em especial nos paÃses com o mercado imobiliário em queda, o que também coloca pressão sobre o volume de negócios; e ao nÃvel dos produtos estruturados de crédito, que têm sofrido desvalorizações contÃnuas ao longo dos últimos meses. Os riscos para a actividade bancária encontram-se ainda do lado negativo pelo que a palavra prudência continuará a ser o mote durante os próximos meses.
Para além do sector financeiro também o sector não financeiro requer especial atenção nos meses que se seguem. Estima-se que em 2008 atinja a maturidade dÃvida no valor de 1 000 000 000 000 de dólares das empresas europeias e americanas. O refinanciamento da dÃvida passará pelo recurso à emissão de obrigações ou por aumentos de capital, e embora esta pareça ser a via escolhida por muitos, o recurso à emissão de obrigações será inevitável. Teremos assim um recurso ao mercado de crédito em condições que se adivinham particularmente difÃceis, pois existem factores que colocam os custos do crédito sob pressão. São eles: as condições económicas apresentam-se fracas; o nÃvel da oferta atingirá montantes significativos; os lucros das empresas deverão diminuir face à evolução económica; as restrições que o sector financeiro enfrenta reflectir-se-ão na disponibilidade para conceder crédito. A acrescermos a isto, a taxa de insolvência que se encontrava em nÃveis historicamente baixos em finais de 2007, deverá aumentar consideravelmente e a dÃvida de classe especulativa – que apresenta uma probabilidade superior de insolvência – representa hoje uma proporção de 2/3 do total da dÃvida, o seu nÃvel mais alto de sempre.
Embora a situação nos mercados de crédito seja manifestamente melhor do que há 2 meses atrás, os riscos negativos sobre o sector financeiro e não financeiro persistem. Enquanto que o sector financeiro já reconheceu perdas significativas, o sector não financeiro conhecerá maiores dificuldades nos meses que se seguem à medida que a actividade económica abrande. A duração e a profundidade do abrandamento económico ditarão as regras do jogo nos próximos meses. Um ponto de viragem nos mercados parece assim ainda incerto no actual contexto.
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