Análise Económica

Análise BPI 2008-05-08 12:31

Ponto de viragem nos mercados de crédito?

A operação de salvamento do Bear Stearns pela Fed e um movimento de recapitalização por parte dos bancos após o registo de avultadas perdas permitiram uma melhoria de sentimento nos mercados de crédito que se traduziu numa descida dos spreads.

João Sousa, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Embora as condições no mercado de crédito tenham melhorado e se tenha assistido a uma retoma da emissão de dívida, continuam a existir restrições significativas de liquidez, o que, conjuntamente com o abrandamento da actividade económica, deixa antever um agravamento das condições, em especial para empresas não financeiras.

Após o registo de perdas relacionadas com o subprime num montante superior a 300 mil milhões de dólares, o sector financeiro procedeu a um forte movimento de recapitalização através de aumentos de capital e da emissão de dívida. Este movimento e as diversas acções tomadas pelos principais Bancos Centrais conseguiram transmitir confiança aos mercados, pois: por um lado, a acção dos bancos centrais indica que estes deverão agir antecipadamente evitando uma crise sistémica do sistema financeiro; por outro lado, a recapitalização dos bancos permitiu um reforço da sua posição financeira, tornando-os mais resilientes a futuros desenvolvimentos negativos nos mercados de crédito.

Mas embora a situação actual se apresente mais favorável, as distorções nos mercados de crédito permanecem, em especial nos mercados interbancários. As taxas de juro nestes mercados continuam a situar-se bem acima das taxas de referência dos bancos centrais o que poderá significar que os bancos continuam com problemas de liquidez mas também que o clima de confiança ainda não se encontra plenamente restabelecido e que por ora os bancos preferem reter liquidez ao invés de ceder. Mais ainda, os bancos enfrentam desafios a vários níveis para a sua actividade, nomeadamente: ao nível da banca de investimento, em que o volume de negócios tem diminuído; ao nível da banca a retalho, em especial nos países com o mercado imobiliário em queda, o que também coloca pressão sobre o volume de negócios; e ao nível dos produtos estruturados de crédito, que têm sofrido desvalorizações contínuas ao longo dos últimos meses. Os riscos para a actividade bancária encontram-se ainda do lado negativo pelo que a palavra prudência continuará a ser o mote durante os próximos meses.

Para além do sector financeiro também o sector não financeiro requer especial atenção nos meses que se seguem. Estima-se que em 2008 atinja a maturidade dívida no valor de 1 000 000 000 000 de dólares das empresas europeias e americanas. O refinanciamento da dívida passará pelo recurso à emissão de obrigações ou por aumentos de capital, e embora esta pareça ser a via escolhida por muitos, o recurso à emissão de obrigações será inevitável. Teremos assim um recurso ao mercado de crédito em condições que se adivinham particularmente difíceis, pois existem factores que colocam os custos do crédito sob pressão. São eles: as condições económicas apresentam-se fracas; o nível da oferta atingirá montantes significativos; os lucros das empresas deverão diminuir face à evolução económica; as restrições que o sector financeiro enfrenta reflectir-se-ão na disponibilidade para conceder crédito. A acrescermos a isto, a taxa de insolvência que se encontrava em níveis historicamente baixos em finais de 2007, deverá aumentar consideravelmente e a dívida de classe especulativa – que apresenta uma probabilidade superior de insolvência – representa hoje uma proporção de 2/3 do total da dívida, o seu nível mais alto de sempre.

Embora a situação nos mercados de crédito seja manifestamente melhor do que há 2 meses atrás, os riscos negativos sobre o sector financeiro e não financeiro persistem. Enquanto que o sector financeiro já reconheceu perdas significativas, o sector não financeiro conhecerá maiores dificuldades nos meses que se seguem à medida que a actividade económica abrande. A duração e a profundidade do abrandamento económico ditarão as regras do jogo nos próximos meses. Um ponto de viragem nos mercados parece assim ainda incerto no actual contexto.


Comentários
 
luis
assim mesmo.a banca que ainda ha um ano remunerava mal os depositos e pagava publicidade para credito a habitaçao a spread zero,diz agora que nao tem capital e cobra mesmo para empresas solidas,euribor mais dois por cento.grande visao.
 
daniel
sr. luis se tem uma empresa solida e o banco cobra euribor mais dois por cento, só pode ser devido ao seu mau trabalho ou a empresa não é tão solida como diz.
 
FM
É o capitalismo no seu melhor:agita o mercado, dinamiza-o e, de repente, é hora de parar a música;consequentemente faltam cadeiras para alguns se sentarem. Quem são? aqueles que acreditam na dinâmica imposta pelo capital e confiam na estabilidade financeira dos mercados, adquirindo casa própria, investindo na sua PME, etc. Depois vem a realidade dura e crua. Mas logo surgem os arautos da moralidade financeira dizendo que não deviamaos recorrer ao crédito, que estamos a viver acima das nossas posses, etc, embora se esqueçam de dizer que desempenham elevados cargos na administração dos principais Bancos, vivendo à custa daqueles que ficaram sem cadeira. Volta Marx, estás perdoado
 
 
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